O lado B do Peru (sem Machu Picchu)

MACHU PICCHU pode fazer parte do roteiro mais infalível do Peru; LIMA, do mais saboroso. Mas se limitar apenas a essas atrações é deixar de lado paisagens de cair o queixo e histórias milenares que anseiam ser contadas. Não entenda mal: idas às ruínas maias e aos restaurantes do top chef Gastón Acurio devem, sim, fazer parte dos seus planos. Mas existem programas extras que há tempos deixaram o papel de coadjuvantes e servem como bons argumentos para visitas ainda mais longas e frequentes.

É o caso do Lago Titicaca, no extremo sul do país. Famoso por ser o maior lago navegável do mundo a uma altitude tão elevada – 3.821 metros acima do nível do mar –, ele faz divisa com a Bolívia e é lar de povos pré-colombianos, como os aimarás, que vive, até hoje em ilhotas flutuantes construídas artificialmente com totora, uma planta que cresce naquelas águas. É, no mínimo, interessante entender a dinâmica de uma gente que se esforça para manter tradições tão antigas, e ainda aprender parte dessa cultura, baseada na pesca e no artesanato, com os próprios nativos.

A forma mais popular de conhecer uma das 80 ilhas Uros, como são chamadas, é fazendo bate e volta desde Puno, cidade peruana à beira do lago. Há dezenas de agências que organizam o passeio. Mais recomendado, porém, é se hospedar em um hotel flutuante, como o Uros Aruma Uro, que fica na ilha Arumauro e possui quartos simples, mas aconchegantes. Os inconvenientes ficam por conta do banheiro, fora da habitação, e do banho com água morna para fria – devido à altitude, as noites são congelantes mesmo no verão, o que dificulta a adaptação. Sim, a estrutura poderia ser melhor. A experiência, porém, é inesquecível. E cabe no bolso: a partir de R$ 115, com café da manhã incluído.

Ainda no Titicaca, passar pelo menos meio dia na ilha de Taquile, a duas horas de barco de Puno, é obrigatório. Assim como os aimarás, os taquileños mantêm viva a cultura de seus ancestrais. A língua oficial é quíchua, mesma usada no passado pelos incas, e as famílias da comunidade se revezam nas tarefas: uma é encarregada de cuidar do plantio de milho, outra de providenciar refeições no restaurante (o prato principal é, quase sempre, truta fresca pescada no próprio lago), outra de vender as peças cheias de detalhes confeccionadas por lá.

A arte têxtil local, aliás, é tão única que a Unesco reconheceu como patrimônio da humanidade em 2005. Detalhe: enquanto as mulheres preparam o fio e a tecelagem, os homens bordam e tricotam cachecóis, mantas e o tradicional cinto-calendário, um cinto largo que representa os ciclos anuais associados às atividades agrícolas. 

CORES DE CHIVAY
A pouco menos de 300 quilômetros ao norte de Puno está Chivay, pequena vila de aproximadamente cinco mil habitantes e localização estratégica, nos arredores do Vale de Colca. A natureza bruta, tão característica do local, chama a atenção: um impressionante encontro do deserto com solos férteis, onde se cultivam variadas espécies de milho e batata, carros-chefes da culinária local. À volta, montes, vales e até vulcões em atividade, que fazem a terra balançar dia sim, outro também. São tremores leves, que assustam à primeira vista, mas não causam danos graves.

O mercado de rua de Chivay é recheado de comidinhas típicas e barracas que vendem roupas folclóricas, como a pollera, estilo de saia colorida megabordada, usada diariamente – e orgulhosamente – pelas senhoras do povoado. As gerações mais jovens infelizmente não levam a tradição quíchua tão a sério e preferem mesclar peças locais a looks contemporâneos. Difícil prever o resultado disso no futuro. Uma pena.

Há três transportes semioficiais na região: tuk tuk, vans coletivas e carros particulares, cujas corridas devem ser previamente negociadas – e estão longe de ser caras. As distâncias são curtas, mas é necessário ir motorizado ao ponto turístico principal do vilarejo, o complexo de águas termais La Calera. O calor é intenso e a subida, íngreme. Mas não vá com muita expectativa; o espaço é simples e a estrutura, precária. A vista compensa com todo o esplendor da Cordilheira dos Andes.

O visual é semelhante ao contemplado pelos hóspedes do Eco Inn Colca, hotel eco-friendly localizado na ainda mais pacata Yanque, a 15 minutos de Chivay. Pouquíssimos gringos, ar puro, chão de terra e lhamas por todo canto são puro charme. De lá, é possível ir aos pés do Vale de Colca em pouco mais de uma hora. Além de ter o cânion mais profundo do mundo (mais de quatro mil metros até o chão!), o parque é famoso pelas trilhas naturais que demandam diferentes níveis de preparo físico e podem ser feitas ao lado de um guia ou por conta própria.

Vale chegar ao Mirante Cruz do Condor por volta das dez da manhã. Não há como prever com exatidão, mas é este o horário típico de outra atração popular por lá, o voo do condor. Ave sagrada na cultura inca, o animal vive no seu próprio ritmo. Quem passa no teste de paciência é altamente recompensado com uma exibição de primeira, do tipo emocionante. Em tempo: a envergadura das asas do condor pode chegar a até 3,5 metros de comprimento. E, sim, ele chega bem perto das pessoas.

Há quem enfrente três cansativas horas de estrada (só de ida!) para ver tudo isso de perto. São turistas que saem de Arequipa para rápidos passeios de um dia, vendidos por uma das agências espalhadas pelo centro histórico da cidade. Se tempo não for problema, considere planejar tudo sozinho – os ônibus que partem do terminal principal não têm luxo, mas são baratos e dignos. Dormir pelo menos uma noite nos vilarejos próximos a Colca também é altamente recomendável. Você não vai se arrepender.

CIDADE BRANCA
O caminho inverso pode ser feito por aqueles que partem do sul à “la ciudad blanca”, como Arequipa é conhecida por conta dos edifícios coloniais construídos com pedras vulcânicas de coloração, veja só, branca. Capital regional e segunda maior do país, a cidade possui um cartão-postal bastante imponente: o vulcão El Misti, gigante de 5.822 metros e pico perfeitamente coberto por neve, mesmo no alto verão.

Mas é a gastronomia extraordinária o principal motivo das dezenas de milhares de visitas ao ano. Nomes como El Charrua e Chicha são a maior prova de que bons restaurantes não se limitam a Lima. O primeiro é especializado em parrillas no melhor estilo argentino (a linguiça artesanal morcilla é fenomenal). Conta também com terraço charmoso e vista privilegiada dos Andes. O segundo serve ceviches elaborados pelo já citado chef sensação Gastón Acurio, e a orgia gastronômica começa logo no couvert, com pão de chicha morada e manteigas temperadas.

DESERTO SEM FIM
Ainda mais ao norte – a 720 quilômetros dali, para ser preciso – um oásis em meio ao deserto chama a atenção. Batizado de Huacachina, o lugar em questão fica em Ica e é rodeado por dunas que parecem não ter fim, palco ideal para a prática de sandboard, o famoso surfe de areia. Acelerar a bordo de um buggy também está entre as atividades mais procuradas. O passeio pelo deserto dura uma hora e é a parte mais eletrizante da viagem. Diga ao motorista que você quer emoção – e não se esqueça de frisar a sua procedência brasileira, já que eles costumam exercer preços diferenciados a turistas americanos e europeus…

A poucos quilômetros do deserto, ainda em Ica, há vinícolas que não chegam a ser premium, mas valem a visita. Na El Catador, por exemplo, é possível ver de perto todo o processo de fabricação do vinho e do pisco, bebida destilada a partir do mosto de diferentes tipos de uvas. É a base para o pisco sour, drink popular de norte a sul do país. Moderação, já que a graduação alcoólica do cocktail é de nada menos que 40%.

Para fechar com chave de ouro, que tal uma visita rápida a El Carmen, também no sul do Peru? A população local é de maioria negra, e dissemina a cultura afro-peruana com um orgulho lindo de ver. Assistir a apresentações informais de sapateado e outras danças típicas ou aprender coreografias cheias de gingado com as mulheres da vila são diversão garantida.

Só não coma a refeição principal do restaurante La Tutuma de Susana: gato assado. Crueldade permitida pelas autoridades, mas que não precisa ser compactuada. Sentar em um dos bares, tomar cerveja, comer petiscos simples e bater papo com os moradores até o pôr do sol é muito mais prazeroso (e ecologicamente correto).

A alimentação mais rica pode ficar para o dia seguinte, em Lima, por onde você vai inevitavelmente passar antes do retorno ao Brasil.

DICAS DE AMIGO

QUANDO IR?
Quase o ano todo. Evite apenas janeiro e fevereiro, os meses mais chuvosos. E se prepare para o frio – mesmo no verão, as noites são geladas. Culpa da altitude.

ONDE COMPRAR MOEDA LOCAL?
No destino – um pouco no aeroporto, outro tanto nas casas de câmbio de Lima ou de outra cidade. Trocar dinheiro no Aeroporto Internacional de Guarulhos é furada. Você sempre sai perdendo. E tanto faz levar reais ou dólares.

AVIÃO OU ÔNIBUS?
Depende do seu budget. A segunda opção é sempre mais barata, mas também mais desconfortável. Os caminhos que levam às principais cidades do país não são exatamente seguros, mas um deleite para os olhos – as estradas margeiam a lindíssima Cordilheira dos Andes. E enquanto os voos devem ser reservados com maior antecedência, as passagens de ônibus ficam mais em conta se adquiridas no próprio terminal, um dia antes do embarque.

E O MAL DA ALTITUDE?
Quanto mais se sobe, mais a temperatura desce – e o soroche aparece. É possível que você sinta tontura, falta de ar, dor de cabeça e outros efeitos colaterais do recorrente soroche. Por isso, evite esforços exagerados e beba muito líquido. Tomar chá de folha de coca também ajuda. Mas dar um tempo para o seu corpo se acostumar com a altitude é a melhor forma de amenizar os efeitos colaterais.

Uros 3

Titicaca 7

Arequipa El Misti

Huacachina 2

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